Yukio Mishima - O Templo do Pavilhão Dourado
(contém spoilers!)
O livro é uma narração em primeira pessoa dos diálogos internos e atos na vida de Mizoguchi, um jovem japonês que cresceu em meio ao período da segunda guerra mundial. Dotado de uma personalidade introvertida, introspectiva, possuindo um grave problema de dicção e uma criação unusual, estes fatores o levaram a desenvolver uma personalidade incomum.
A história é baseada em fatos reais, e a pessoa em que o protagonista foi baseado, Hayashi Yoken, foi diagnosticada como sendo um psicopata com distúrbio de personalidade esquizóide, pelo psiquiatra que o examinou depois que ele foi detido.
Sendo o filho de um monge budista, Mizoguchi cresceu sendo preparado para se tornar um monge, o que somado às suas outras características levou uma rejeição de seus pares. Dotado de uma forte imaginação e introspecção, a ele lhe bastava seus sonhos e ideais, porém seja por falta de viver no presente ou por resignação ante a realidade ele pouco fez para torná-los reais.
Em meio a tudo isso há o Templo do Pavilhão Dourado, que seu pai havia lhe dito era de imensa beleza. Conforme crescia, a figura do Templo como sua representação da beleza ganhava mais e mais espaço em sua mente, talvez como uma forma de compensar as suas perspectivas vazias de futuro, o valor do transcendental que havia em si foi depositado na imagem do Templo.
Porém, ao se tornar um monge e viver dentro do Templo e no mundo budista, o que ele realizou foi que a beleza do Templo significava para si mesmo algo inumano, irreal, estéril, e o Templo passou a se tornar uma barreira entre si e a vida. Por aí há um impasse entre a beleza permanente do “indestrutível” Templo, e a beleza impermanente da vida.
A morte de seu único amigo, aparentemente acidental e até mesmo trágica num sentido de falta de significância, foi o acontecimento derradeiro que o levou a perder aquele que era o último laço que o prendia à realidade e a vida. Embora mais tarde outros fatos foram revelados, o estrago já estava feito.
Ademais, com o tempo seu desprezo pela negação da vida que via na doutrina budista, representada pelo Superior, o protagonista chegou à conclusão de que era necessário destruir tudo aquilo, talvez como uma forma de dar significado à própria vida.
Fora estes pontos levantados, também há outros interessantes, como o personagem Kashiwagi, com quem Mizoguchi fez amizade quando entrou na universidade, e de como sua deformidade passou a ser o foco de sua personalidade se manifestando de uma forma diferente da gagueira do protagonista. A maneira como as deficiências afetam a personalidade permite traçar paralelos e alguma influência da filosofia Nietzscheana: você é aquilo que seu corpo é, a deformidade do corpo se traduz como deformidade de comportamento.
Para Kashiwagi “são as ideias que movem o mundo, não as ações”. E, embora seja uma realidade que as ideias são capazes de sobreviver e influenciar o mundo através das eras, no final é a utilidade delas ante a realidade prática e o espírito do tempo que a faz ser adotada ou não, ou seja, independente de sua relevância, as ideias dependem das pessoas para colocá-las em prática.
O conceito de beleza e o budismo também é discutido, a partir de uma perspectiva bastante interessante. A forma como o Superior é retratado por exemplo é rica em nuance, afinal onde falta a moralidade abunda riqueza de idiossincrasias, aquele que em um momento se entrega à carne e a degeneração também é alguém totalmente desapegado da vida, e também é alguém capaz de demonstrar profundo dedicação ao Zen, ou seja, os personagens são vivos e multifacetados.
Outro aspecto marcante é a perspectiva amoral pela qual o enredo se move, o que gerou certas reações de acordo com algumas revisões que li. Em relação a isso, devo admitir que a leitura pouco me influenciou, talvez por já estar entorpecido pela enorme exposição que a realidade moderna traz, ou pela facilidade de dissociar ideias de sentimentos, a jornada interna pela qual o protagonista passa e suas perspectivas que ignoram a moralidade do ponto de vista comum não realmente me fazem sentir nada em particular, na realidade O Templo do Pavilhão Dourado me pareceu uma leitura bastante leve e até agradável.
Não está claro para mim quando desta história é baseada em fatos e quanto é criação da imaginação do autor, mas segundo as declarações do próprio Yoken o ato de queimar o templo foi absolutamente intencional. Ironicamente, Yoken sobreviveu a sua própria tentativa de suicídio em meio à queima do templo, para ser liberado 5 anos depois após sofrer de severos distúrbios psicológicos em cárcere, só para saber que o templo que ele destruiu havia sido reconstruído fielmente de acordo como original. Um ano depois ele morreu, mas o templo ainda está lá até hoje.
Ao saber desses desenvolvimentos me dá uma sensação mística envolvendo o Templo do Pavilhão Dourado, pois a realidade por lá se encontra com a ficção, e sua indestrutibilidade ante tais acontecimentos apenas se reforça, assim como sua proposição como beleza inalcançável o Templo do Pavilhão Dourado resistiu. Sua sobrevivência perante a ficção de sua destruição dá ares sobrenaturais, fazendo dele uma existência como um elemento mágico dentro de uma realidade materialista, como a em que vivemos.
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